De Proprietário a Inquilino Digital: Como as empresas estão tomando tudo o que era seu na era das assinaturas
Em um passado recente você poderia dizer que era dono de tudo que você comprava. Você já percebeu que isso tem mudado?
A Música Sumiu: Do Vinil à Nuvem Efêmera
Vamos lá, tempos atrás para você escutar música, você precisava comprar um álbum primeiramente em Vinil, depois passou a ser CD, veio a pirataria e o mercado se adaptou para vendas de música individuais, ainda assim você passou a poder baixar as músicas e tinha o arquivo MP3 contigo. Pense como você consome música hoje?
Outro exemplo, para você usar um programa de computador, você comprava a versão do programa e ela era sua. Podiam lançar 10 versões posteriormente, mas ainda assim você poderia usar essa versão antiga, pois ela era sua! E agora, se você trabalha com computador ou smartphone, já parou pra pensar em quantos programas assinamos hoje?
Falando em smartphones, nem mesmo o armazenamento dos arquivos ficam realmente conosco. A Apple, por exemplo, não dá a opção de você incluir um cartão de memória nos iPhones para que tenha que comprar espaço no iCloud. Não pense que o travamento quando tem pouco espaço é um erro que eles precisam corrigir, isso é um “erro” planejado para que você fique insatisfeito o suficiente para se render e comprar mais espaço de armazenamento.
A Conta que Não Para de Crescer: A Matemática Assustadora dos Streamings
Se você já passou dos 30 possivelmente já comprou um DVD, se passou dos 40 possivelmente já comprou fitas cassetes. Agora assinamos streaming de filmes e séries. Aí você diz, mas haviam as locadoras, os produtos não eram seus também desde aquela época. Tinham também os pay per view, modelo de aquisição pontual, você compra para assistir um evento, com as assinaturas está cada dia mais em desuso.
O fato é que com a assinatura, a gente paga mesmo quando a gente não usa, talvez pela comodidade de pensarmos “é bom ter, a assinatura nem é cara”. O fato é que com tantas assinaturas, perdemos a conta de quanto nós pagamos. Bora fazer uma conta de padaria rápida só pra termos uma ideia de custos?
- Netflix: A partir de R$ 20,90/mês (com anúncios).
- Prime Video: A partir de R$ 19,90/mês, com benefícios adicionais como frete grátis (com anúncios).
- HBO Max: A partir de R$ 29,90/mês (com anúncios).
- Disney+: A partir de R$ 27,99/mês (com anúncios e sem conteúdos da ESPN).
- Globoplay: A partir de R$ 22,90/mês (com anúncios).
- Paramount+: A partir de R$ 18,90/mês (com anúncios).
- Crunchyroll: A partir de R$ 14,99/mês (plano gratuito com anúncios – catálogo incompleto).
- Apple TV+: R$ 21,90/mês (Não tem plano com anúncios).
- Mubi: R$ 34,90/mês (Não tem plano com anúncios).
Vamos dizer que você não assina todos, apenas os que você considera principal. Vamos selecionar a Netflix, né? Acredito que esse é praticamente indiscutível ter pelo menos a Netflix. Depois, se você compra com recorrência na Amazon, vale a pena assinar a Prime Vídeo, afinal dá direito a frete grátis em diversas compras. E os filmes que são sucesso de bilheteria nos cinemas? Bom, vamos assinar a Disney+, ela tem os principais sucessos da Disney, Pixar, Marvel, Star Wars e os conteúdos do Hulu já no plano inicial. Mas aí também quero assistir os filmes e séries mais premiados e aclamados pela crítica, eles estão geralmente na HBO Max e Apple TV+, vamos escolher a Apple TV+, pois não tem anúncio e ainda é mais barato.
Vamos pegar apenas esses quatro mencionados: Netflix, Prime Video, Disney+ e Apple TV+. Somando os planos mais baratos (com anúncios), já passamos de R$ 90 por mês. Além disso qualidade de imagem é inferior e na maioria dos casos, só pode ser visto por dispositivo móvel, ou seja, nada de assistir pela televisão na maioria dos streaming com os planos mais baratos.
Me diga, você tem tempo para assistir tudo? Além disso, você está no TikTok, Reels (Instagram) ou Shorts (YouTube) e um filme, série, ou documentário é indicado e você se anima para assistir. Aí você descobre que esse conteúdo não está no catálogo das suas assinaturas. Quantas vezes você já se frustrou não encontrando um filme que você queria muito assistir?
A Volta da Pirataria: Um Sintoma do Esgotamento
Às vezes você tem que fazer outra assinatura para conseguir assistir a um conteúdo que está disponível na plataforma, mas não no seu país, agora é a assinatura de VPN. Eu fiz isso para assistir “Emilia Pérez”, instalei uma VPN, pois queria assistir o filme antes do Oscar. O filme é de distribuição da Netflix, mas no Brasil ele não está disponível.
E qual tem sido a resposta do consumidor, encurralado por tantas assinaturas e catálogos fragmentados? A pirataria, que parecia ter seus dias contados, está voltando com força. É ingenuidade achar que as pessoas vão deixar de consumir, ainda mais os brasileiros que dão um jeitinho pra tudo.
Enquanto era só a Netflix que reinava no streaming de vídeos e séries, estava tudo indo bem. A assinatura da Netflix era R$15, não tinha propaganda e era possível assistir na TV, aliás isso foi lá por 2011 e as TV estavam tendo que se adaptar colocando um botão para Netflix ou se tornando Smart Tv, com possibilidade de baixar o aplicativo da Netflix. Esse plano de R$15 era o Padrão, que hoje está 44,90, isso aí! Agora está 3x mais caro.
Era comum ainda amigos dividirem uma conta da Netflix, pois lá permite até 4 usuários mais o usuário Kids. Agora, se você quer dividir com alguém, tem que pagar um adicional de R$12,90/mês por conta adicional. Daqui a pouco eles inventam outra coisa para aumentar o faturamento e lucro da empresa.
Vamos fazer o cálculo agora se quisermos assistir 4 streaming escolhidos, mas sem anúncio:
- Netflix: A partir de R$ R$44,90/mês (sem anúncios).
- Prime Video: A partir de R$ 29,90/mês, com os mesmos benefícios (sem anúncios). Disney+: A partir de R$ 46,90/mês (sem anúncios, mas ainda sem os conteúdos da ESPN).
- Apple TV+: R$ 21,90/mês (plano inalterado).
Agora sua conta vai ficar superior aos R$140/mês, para ser mais preciso R$ 143,60 por mês. E isso só para assistir filmes e séries.
A Ilusão da Economia: R$ 29,90 que Viram R$ 3.720
As assinaturas estão reduzindo cada dia mais o mercado de consumo de usados. Com isso, não há mais um CD, DVD ou jogo em mídia física para revender ou emprestar para um amigo. A assinatura mata o mercado secundário, concentrando todo o lucro na empresa detentora do serviço. Afinal de contas, a empresa não vai lucrar quando você revende ou comprar algo usado, muito menos quando você empresa.
A conveniência das assinaturas cria uma armadilha psicológica. O pagamento recorrente, muitas vezes “invisível” no cartão de crédito, é menos doloroso do que um grande gasto único. Isso nos leva a acumular dezenas de pequenas assinaturas (“ah! É só R$ 29,90 por mês”), criando uma “dívida perpétua” que drena nossas finanças de forma silenciosa.
A pergunta é: essa conveniência nos tornou financeiramente passivos? Estamos abrindo mão do controle sobre nossos gastos em troca do menor esforço? Ou essa está sendo uma imposição do mercado para moldar o nosso consumo para elevar os lucros de uma parcela pequena de empresários e acionistas?
Já parou para analisar quantos softwares e aplicativos temos? Temos assinaturas para aplicativos de trabalho, exercícios físicos, cursos, música, livros (e-books), antivirus, serviços de “Game Pass”, jornais e revistas online e diversos aplicativos em seu smartphone com serviços que foram “plataformizados” para vender em forma de assinatura. Já existem plataformas de assinaturas de tudo que você imaginar: roupas, bebidas, produtos de higiene, bem-estar, cosméticos, estética, impressão de fotografias, decoração de casa, café…
No curto prazo, analisamos apenas as assinaturas em seu valor individual. Pagar R$29,90 por mês parece mais barato, ainda mais se pensarmos em softwares de trabalho, que a compra pode passar do valor de R$ 1.000, único software. Os softwares mais completos são mais caros, um exemplo é a Adobe Creative Cloud, que tem custo inicial de 114/mês no primeiro ano, passando R$ 189,00/mês nos anos seguintes caso continue com estudante. O preço de tabela da assinatura para um usuário é de 320,00/mês no plano anual, que dá um valor de 3.720,00/ano.
No longo prazo, o custo total da assinatura quase sempre supera o da compra à vista, do qual muitas empresas estão deixando de oferecer, ou simplesmente não apresentam de forma explícita no momento da venda. Além disso, todo ano os softwares são atualizados de versão e os arquivos das versões mais atualizadas passam a não ser mais compatíveis em seu software instalado, obrigando a trocar de software ou migrar para a assinatura.
Mesmo com muitos recursos no pacote de aplicativos, uma hora ou outra precisamos de algum outro recurso que está nos produtos da assinatura que temos e precisamos de outro software, ou assinar um complemento para ter acesso a um recursos adicionais. Afinal, o consumidor paga pela conveniência e pelo baixo custo inicial, ou isso é uma imposição do mercado? O que eu sei é que no final essa conta fecha.
O Relato: Quando Meu Mundo Digital Desapareceu
Você não está seguro! O que você paga não é seu, imagine o que é “de graça”? Quando você é proprietário, você tem soberania sobre o produto. Pode consertar, modificar, usar de maneira não prevista ou simplesmente guardá-lo na prateleira por uma década e depois revender ou dar para alguém.
Na economia da assinatura, você é um “inquilino”. A empresa controla o que você acessa, por quanto tempo e sob quais termos. Ela pode alterar o catálogo, aumentar o preço ou descontinuar o serviço a qualquer momento. Estamos trocando nossa autonomia por acesso temporário, o que significa ser “dono” no século XXI?
O que acontece se você tem uma assinatura recorrente tem um problema de pagamento no seu cartão de crédito ou simplesmente você esqueceu de renovar a assinatura? Em serviços como iCound e Google One, que aumenta o espaço de armazenamento de arquivos digitais, se você não paga, não tem espaço. Sem espaço, pra onde vão os seus arquivos lá armazenados? Você pode ter uma vida de trabalhos ou memórias de sua vida apagadas em poucos dias.
Pense, quantas fotos e vídeos você tem nestes serviços? Antigamente imprimiamos as fotos para guardar como recordação, sim elas envelhecem, amarelam, mas o registro continua. No digital, tudo é muito efêmero. Hoje ainda temos fontes seguras sobre o nosso passado muito devido aos jornais e revistas impressos, no digital o acervo parece não ter mais a mesma importância, conteúdos são excluídos por apresentarem apenas um espaço ocupado “inútil”.
E os serviços considerados gratuitos na internet? Já pensou em perder o seu e-mail? E suas contas nas redes sociais? Não é raro conhecer pessoas que simplesmente tiveram suas contas nas redes sociais apagadas por “descumprirem os termos e condições” da plataforma, algumas vezes sem notificações, avisos ou detalhes sobre o descumprimento, simplesmente você tenta acessar e não consegue.
Neste ano foi noticiado que BILHÕES de senhas foram vazadas de empresas como Google, Facebook e Apple. Por acaso, foi o mesmo ano em que eu tive uma conta de e-mail roubada. Em poucos minutos modificaram todos os métodos de recuperação de conta, no mesmo dia eu percebi e entrei em contato com a empresa e disseram que nada podiam fazer além de orientar a usar os métodos de recuperação de conta. A solução dada foi “crie outra conta”.
Este e-mail me dava acessos a diversas plataformas, que tive que entrar em contato uma por uma, para trocar o e-mail. Nem todas as empresas consegui realizar essa troca de e-mail, algumas por dificultarem o acesso ao suporte com um agente humano outras por não dar tempo.
O desespero foi grande, cada dia era uma surpresa, invadiram meu Instagram, roubaram o meu LinkedIn (a conta foi até bloqueada), fiquei sem acesso a plataformas como Hotmart, no qual necessita de autenticação em dois fatores, com código que chega no e-mail.
O Instagram eu consegui recuperar rápido, pois a plataforma identificou a troca de senha como uma atividade incomum e permitiu que eu trocasse a senha com o dispositivo que já estava conectado, no caso o meu celular. Isso foi possível pois eu estava usando o Instagram, quando repentinamente ele desconectou, tentei acessar e deu senha incorreta.
Possivelmente quem roubou o e-mail, utilizou o e-mail roubado para trocar a senha. Assim que recuperei a conta do Instagram, eu troquei a senha e o e-mail de recuperação de conta. No LinkedIn, foi diferente, consegui recuperar enviando os meus documentos pessoais, notei apenas depois que a conta havia sido bloqueada. Não sei o que a pessoa fez para que isso acontecesse, sei apenas que mudou a foto do meu perfil. O que eu sei é que meu perfil profissional, que eu havia construído por anos, foi violado em questão de minutos.
Com a empresa do e-mail, tive que acionar judicialmente o pedido para recuperar a conta. Só recuperei o acesso dois meses depois, quando entraram em contato comigo para fazer um teste de verificação de autenticidade por meio de uma videochamada. Mas a insegurança não passa, penso que a qualquer momento vou descobrir que perdi o acesso de alguma coisa.
Eu consegui recuperar, mas imagine quantos foram prejudicados com esses bilhões de senhas vazadas e não tiveram o mesmo destino que o meu. Por isso eu afirmo que na era digital, não somos donos de mais nada.

