Cidade tem média de 20,79% nas 14 atividades analisadas — bem abaixo da média nacional (30,14%) — e concentra a maior parte das experiências culturais longe dos bairros onde os moradores vivem
Campo Grande/MS figura na última posição no ranking geral de acesso à cultura entre as capitais de estados do Brasil, com uma média de 20,79% de participação em atividades culturais. Este dado, revelado pela pesquisa “Cultura nas Capitais”, contrasta significativamente com a média nacional de 30,14%.
A pesquisa, realizada pelo Datafolha para a JLeiva Cultura & Esporte, entrevistou 19.500 pessoas em todas as capitais brasileiras, com idades a partir de 16 anos, utilizando metodologia de entrevistas presenciais em pontos de fluxo populacional. Em Campo Grande, foram 600 entrevistas entre 2 de março e 15 de maio de 2024, com uma margem de erro de 4 pontos percentuais.
Baixo Acesso em Todas as Categorias de Atividades Culturais
A análise detalhada do acesso a 14 atividades culturais nos últimos 12 meses mostra que Campo Grande está abaixo da média nacional em todas elas. Alguns dos índices mais baixos incluem:
• Livros: 47% em Campo Grande vs. 59% na média nacional.
• Jogos eletrônicos: 34% em Campo Grande vs. 48% na média nacional.
• Cinema: 42% em Campo Grande vs. 46% na média nacional.
• Shows de música: 33% em Campo Grande vs. 36% na média nacional.
• Festas populares: 30% em Campo Grande vs. 38% na média nacional.
• Locais históricos: 26% em Campo Grande vs. 43% na média nacional.
• Dança: 15% em Campo Grande vs. 29% na média nacional.
• Bibliotecas: 13% em Campo Grande vs. 25% na média nacional.
• Museus: 13% em Campo Grande vs. 25% na média nacional.
• Circo: 12% em Campo Grande vs. 17% na média nacional.
• Teatro: 12% em Campo Grande vs. 20% na média nacional.
• Feiras do livro: 9% em Campo Grande vs. 21% na média nacional.
• Saraus: 3% em Campo Grande vs. 12% na média nacional.
• Concertos: 2% em Campo Grande vs. 9% na média nacional.
Essa disparidade em todas as categorias ressalta a necessidade de políticas e iniciativas que estimulem a participação cultural na capital sul-mato-grossense.
Deslocamento e Potencial de Público
Outro ponto de atenção é que 70% das atividades culturais frequentadas pelos moradores de Campo Grande ocorrem longe de seus bairros de moradia. Este percentual é superior ao de diversas outras capitais, como Rio de Janeiro (50%), Belém (52%), Curitiba (58%), e São Paulo (54%), indicando uma barreira de acesso geográfico que exige maior deslocamento por parte da população. Apenas 7% das atividades ocorrem no próprio bairro e 23% perto do bairro.
Apesar do baixo acesso, a pesquisa identifica um público potencial para shows na cidade. Cerca de 67% dos entrevistados não foram a shows nos últimos 12 meses, mas 21% demonstraram alto interesse (notas de 8 a 10) na atividade, sugerindo que há demanda reprimida e oportunidades para o crescimento da participação cultural.
Espaços Culturais e Eventos Importantes
Em relação aos espaços culturais mais frequentados, as Praças, Parques, Jardins Botânicos, Aquários e Planetários lideram em Campo Grande, com 20% das menções. Essa preferência por espaços abertos também é observada em outras capitais do Norte, como Macapá (34%) e Boa Vista (60%).
A Vila Morena – Cidade do Natal foi visitada por 69% dos entrevistados, e a Esplanada Ferroviária por 62%. O Bioparque Pantanal e a Casa do Artesão são conhecidos por uma parcela significativa da população (84% e 70%, respectivamente), mas muitos ainda não os visitaram (47% e 31% conhecem mas nunca foram), indicando um potencial de visitação a ser explorado.
Quando perguntados sobre o evento cultural mais importante da cidade, os moradores de Campo Grande citaram 80 eventos diferentes, o que pode indicar uma cultura de eventos mais pulverizada, sem um protagonista cultural único e dominante.
O Carnaval foi o mais mencionado (13%), seguido por festas religiosas (13%) e eventos de agricultura (9%). Em comparação, capitais como Rio de Janeiro (27%) e Recife (36%) têm o Carnaval como evento cultural claramente dominante, enquanto outras, como Brasília (13%) e João Pessoa (25%), destacam as Festas Juninas.
Preferências Musicais e Culinária Típica
No cenário musical, o Sertanejo é o estilo preferido de 64% dos entrevistados em Campo Grande, uma preferência significativamente alta que supera a maioria das outras capitais, com exceção de Cuiabá (68%). Pagode (26%) e Gospel (23%) vêm em seguida. Essa forte adesão ao Sertanejo é uma característica marcante da identidade cultural da capital.
Quanto à culinária, os pratos mais citados como representativos de Campo Grande incluem Churrasco, Costela com mandioca/aipim, Carne assada, Linguiça de Maracaju, Arroz carreteiro e Arroz com pequi. Essa ênfase em carnes e pratos regionais se distingue das preferências em outras capitais, como a Feijoada no Rio de Janeiro, Lanches e Petiscos em Curitiba, ou Cuscuz em João Pessoa.
Apesar de sua última posição no ranking geral de acesso à cultura, Campo Grande possui características culturais únicas e um potencial de público interessado que, se estimulado e com maior facilidade de acesso, pode transformar seu panorama cultural.
Ranking Geral de Acesso à Cultura nas Capitais Brasileiras
A pesquisa Cultura nas Capitais avaliou o percentual de pessoas que participaram de 14 atividades culturais diferentes nos 12 meses anteriores ao levantamento. A partir da média desses percentuais, foi elaborado um ranking nacional, que permite visualizar as cidades com maior e menor engajamento cultural.
Ranking Nacional – Média de Acesso às 14 Atividades Culturais
- Florianópolis – 38,50%
- Porto Alegre – 35,14%
- Rio de Janeiro – 35,07%
- Curitiba – 34,36%
- Belém – 33,57%
- São Paulo – 32,50%
- Manaus – 32,00%
- Macapá – 31,00%
- Goiânia – 30,57%
- Brasília – 30,43%
- Média Nacional – 30,14%
- João Pessoa – 29,36%
- Recife – 28,93%
- Natal – 28,29%
- Teresina – 28,29%
- Salvador – 27,36%
- Fortaleza – 27,36%
- São Luís – 27,07%
- Cuiabá – 26,86%
- Porto Velho – 25,86%
- Aracaju – 25,21%
- Maceió – 24,43%
- Rio Branco – 23,07%
- Boa Vista – 22,07%
- Campo Grande – 20,79%
Campo Grande em destaque negativo
Campo Grande aparece na última posição, com 20,79%, bem abaixo da média nacional (30,14%). Isso confirma o cenário identificado pela pesquisa: menor participação em todas as categorias analisadas, além da necessidade de deslocamento maior para acessar atividades culturais na cidade.
O que os números sugerem
Esse resultado reforça a urgência de políticas públicas voltadas à democratização da cultura, incentivo a eventos locais e valorização de espaços culturais já existentes.
Os dados apontam desafio estrutural (deslocamento alto e poucos equipamentos nos bairros), baixa frequência a bibliotecas, museus e teatro, e grande potencial para programações musicais, de parques e feiras — vertentes já familiares ao público local. Ampliar oferta descentralizada, investir em mediação cultural, transporte para polos e campanhas de primeira visita (caso do Bioparque e da Casa do Artesão) são caminhos práticos para fechar a distância em relação à média nacional.
Metodologia
Em Campo Grande, foram 600 entrevistas entre 2 de março e 15 de maio, com margem de erro de 4 p.p., universo de 701.321 pessoas com 16 anos ou mais. O ranking geral foi calculado pela média simples dos percentuais de participação em 14 atividades culturais (livros, jogos eletrônicos, cinema, shows, festas populares, locais históricos, dança, bibliotecas, museus, circo, teatro, feiras do livro, saraus e concertos).
Vitória (ES) e Palmas (TO) não tiveram dados divulgados.
Foto:
Hamzeh Mohammad Hosseini






