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Documentário dá voz ao povo Terena e transforma sementes em memória e resistência

Filme lançado em Bonito retrata o artesanato indígena como forma de sustento, identidade e luta social

As sementes, quando transformadas em arte, carregam séculos de sabedoria e resistência. Esse é o ponto de partida do documentário “Saberes Ancestrais: Arte e Sementes”, lançado recentemente na Casa Memória Raída, em Bonito (MS), em uma exibição aberta à comunidade.

Com 48 minutos de duração, a obra dirigida por Viviane Nunes, Diana Palacios e Alice Hellmann mergulha na vida e na cultura do povo Terena, de Miranda, valorizando o artesanato indígena como expressão cultural, fonte de renda e ferramenta de preservação da memória. O filme foi realizado com recursos da Lei Aldir Blanc, agora transformada na Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), e já circulou em escolas de assentamentos e periferias, aproximando crianças de uma identidade frequentemente invisibilizada.

Cultura, sobrevivência e denúncia

Segundo a diretora e idealizadora do projeto, Viviane Nunes, a proposta inicial era mostrar apenas o processo do artesanato com sementes. “Mas, conforme a gente mergulhava, percebia que era muito maior: falava de apagamento cultural, de luta social, de sobrevivência”, destacou.

A obra evidencia toda a cadeia que envolve o trabalho artesanal: plantar, colher, furar, secar e, só então, transformar a semente em peça. Para a co-diretora Diana Palacios, o documentário também denuncia desigualdades. “Muitas vezes é a única fonte de renda. Mas o que vemos é exploração: vendem por preços baixíssimos, enquanto na cidade essas peças são revendidas por valores muito maiores. Esse filme também é um grito de consciência”, afirmou.

Alice Hellmann descreveu o processo como uma experiência íntima e transformadora. “O documentário tem esse ritmo lento porque acompanha a fala na varanda, a história contada à tarde inteira. Foi possível porque houve confiança, acolhimento da comunidade e o vínculo já existente com a Diana. Cada depoimento é uma aula sobre sementes, remédios e ancestralidade.”

Resistência e futuro

Um dos protagonistas, o artesão Arildo Cebálio, resume a importância da iniciativa: “Nosso trabalho é muito desvalorizado. Ninguém pensa na dificuldade de coletar a argila ou de replantar sementes cada vez mais raras por conta do desmatamento. Quando alguém faz um documentário sobre isso, a gente se sente valorizado. Esperamos que traga reconhecimento não só para o nosso trabalho, mas também para a proteção do nosso território, porque tudo passa por isso: arte, ancestralidade e vida”.

O lançamento também trouxe forte impacto no público. A espectadora Daniele B. Nascimento Rodrigues relatou: “Foi um privilégio assistir. A gente não imagina o quão trabalhoso é todo o processo. O filme emociona porque mostra nitidamente o apagamento dos povos originários.”

Entre sementes e memória

Mais do que um registro, “Saberes Ancestrais: Arte e Sementes” mostra como o artesanato é também ato de resistência coletiva: conecta gerações, fortalece vínculos comunitários e garante a continuidade da identidade cultural Terena.

Entre imagens sensíveis e depoimentos potentes, o documentário reafirma que proteger o artesanato indígena significa proteger memória, território e vida.

Fonte:
Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS)

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